sábado, 22 de junho de 2013

30 dias sem ele



Era 10h30 da quarta-feira do dia 22/05/2013. Eu estava no trabalho fazendo as atividades que eu tinha planejado. De repente meu celular toca. Era mamãe. Meio chorosa, ela começa a falar que tinha acontecido algo ruim. Logo imaginei que papai estava passando mal. Mas não. Era pior. Infinitamente pior. Recebi a notícia que mais temia em todos os meus anos de vida. Eu tinha perdido uma das pessoas que eu mais amava: meu querido papai.

Eu não acreditei. Pedi para a mamãe parar de mentir pra mim. Mas não era mentira. Era uma verdade cruel e com gosto amargo. Não estava entendendo o que acontecia, afinal, meu pai estava super bem. Como assim, ele se vai, do nada? Sentia como se uma das flores mais importantes tivesse sido arrancada a força do meu jardim. Fiquei desorientada. Não sabia o que fazer. Comecei a chorar de tristeza, de dor por saber que nunca mais veria o meu pai. Meus amigos do trabalho que me ajudaram: compraram passagem, fizeram check-in, me levaram pra casa. E minhas amigas me ajudaram a arrumar minha mala, depois me levaram até o aeroporto. Almoçaram e ficaram comigo até a hora do meu embarque. Graças a Deus e aos meus amigos, aos pouquinhos fui me acalmando, e parecia que eu estava ficando bem.

Entrei no avião e sentei sozinha, bem no fundinho da aeronave. Comecei a lembrar de tanta coisa. E com as lembranças vieram as lágrimas. Cheguei em casa, ansiosa para apoiar minha família. Todos estavam desolados. Mas precisávamos fazer o barco andar. Tínhamos que organizar o velório e o enterro. Encomendar missa pela alma do papai. Fazer as lembrancinhas da missa de 7º dia. Eu nunca tinha imaginado que um dia eu passaria por isso. Mas lá estava eu, vivendo esse pesadelo.

Hoje faz um mês que ele nos deixou. Lembro de como meu pai era carinhoso comigo. De todos os sacrifícios que ele fez para pagar meu colégio, curso de inglês, espanhol e informática. Ele nunca deixou faltar nada pra gente, providenciava alimentação e roupas, levava a gente ao cinema e à praia, e como ele gostava quando pescava aquele peixão digno de história de pescador. Lembro das brincadeiras e palhaçadas, dos sustos que ele dava na gente quando faltava luz, de como a gente se divertia e era tão bom. Lembro de quando a gente ia distribuir docinhos para as crianças pobres da vila onde ele morou quando pequeno, e como ele ficava feliz em levar um pouco de alegria para os necessitados. Lembro das vezes que ele me socorreu quando eu voltava pra casa e a rua estava escura e deserta. E quantas vezes ele me ensinou matemática? Se hoje eu conserto meu chuveiro, instalo minha TV, fogão e máquina de lavar roupa, é graças aos ensinamentos dele.

Ele se foi mas me deixou tantas lembranças maravilhosas. Tantos ensinamentos. E me deixou de herança o maior tesouro que eu poderia querer, parte dele ficou em mim. Seu caráter, sua bondade, o coração de outro que ele tinha. Eu herdei grandes qualidades dele, mas ele levou um pedacinho do meu coração. Esse buraquinho no meu coração nunca vai cicatrizar. Acho que nada nesse mundo, nem ninguém será capaz de preencher o vazio que ele deixou em mim. A dor da perda, a tristeza em saber que nunca mais verei aquele sorriso, ou sentirei aquele abraço, sempre serão presentes em minha vida. Mas, aos poucos, e com a ajuda de Deus, vou aprender a conviver com tudo isso. Sei que papai está junto de Deus, que ele já cumpriu a missão dele e que, por isso, ele foi recebido no Reino de Deus. Isso me conforta e me ajuda a suportar a falta que ele me faz. As pessoas até elogiam minha postura em relação a tudo isso, em como estou calma e serena. Até eu fiquei impressionada, porque de todas as vezes em que eu temi perder alguém que eu amo, eu imaginei que fosse surtar e me revoltar, que eu jamais aceitaria. Acho que a minha fé em Deus, a certeza do amor do nosso Senhor por nós e a confiança que tenho no kairós, tudo isso está me acalmando.

Meu pai foi uma criança simples, que passou fome, andava de calça remendada e sapato furado e catou comida do lixo pra sobreviver. Ele estudou e se formou em técnico em eletrônica. Ele queria continuar seus estudos mas precisou começar a trabalhar cedo para ajudar a família. Mas, por mim, pelos meus irmãos e pela mamãe, ele se transformou em herói, professor, amigo, protetor, trabalhador, Dona Griselda (a faz tudo da novela Fina Estampa, interpretada pela Lilia Cabral)... Ele foi um grande PAI, assim, em caps lock e negrito mesmo. O melhor PAI que Deus poderia ter me dado. Agradeço a Deus pelo PAI que eu tive, pelos momentos que vivi com ele e por tudo de bom que ele deixou pra nós. Mas principalmente agradeço a Deus por Ele ter me dado a oportunidade de reconhecer e retribuir uma pequena parte de tudo que papai fez pela gente. Nessa vida, temos que saber dar valor às pessoas, aproveitar os momentos que a gente vive e as coisas que a gente tem. Porque em apenas 1 segundo, tudo pode mudar. Portanto, não tenham medo ou vergonha de dizer “muito obrigado”, “eu te amo”, “você é importante pra mim”. Curta cada momento que você tem com sua família e amigos. Não deixe nada pra depois. Porque amanhã pode ser tarde demais...  

Menos de um segundo - Rosa de Saron  

Lembro de nós dois
Sorrindo na escada aqui
Estava tudo tão bem
E de repente acabou

Vozes no portão
Passos no saguão
Poderia ser você
Mas faz tempo que partiu

Deixou algo aqui, e pouco a pouco encontro seus sinais

Menos de um segundo e eu já perco o ar
Quase um minuto, quero te encontrar
É um sentimento que preciso controlar
Porque você se foi
Não está aqui

Tudo que ficou
Mexe com meu interior
Isso afeta meus sentidos
Foi o seu cheiro que sumiu

Tudo acabou, interrompeu-se tudo que existiu

Partiu num dia qualquer
Sem ao menos dizer adeus
E o que ficou?
Um coração que sofre
Como quem espera a próxima entrada da estação
E o que separa o frio do calor
É a emoção de saber que vou
Poder te reencontrar um dia
Eternamente te encontrar
Eternamente encontrar você

Menos de um segundo e eu já perco o ar
Quase um minuto, quero te encontrar
É um sentimento que preciso controlar
Porque você se foi
Não está aqui

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